O Advogado José de Borja, por Luis da Câmara Cascudo

Na Revista “Cincoentenário” (Poliantéia),  sob a direção de Manoel Rodrigues de Melo, em comemoração  ao Cinqüentenário de Pendências, há um belo artigo de Luis da Câmara Cascudo que reproduzimos aqui, com a autroização de Daliana Cascudo, neta do mestre. Ele fora convidado para ser o orador oficial das festas do cinqüentenário. Se hospedou, juntamente, com Nestor dos Santos Lima,  na residência do Sub-Prefeito Pedro Alves de Medeiros. Eis o artigo 

“O Advogado José de Borja”. 

José de Borja Caminha Raposo da Camara, provisionado pela Relação do Ceará, rábula terrível, advogado respeitável, discutidor insaciável, era mais temido no foro do que uma tempestade no mar. Tinha as virtudes naturais e os vícios brasileiros. Era malcriado, atrevido, agasalhador e generoso. Defendia um palmo de terra de cendeiro pobre deante de todos os latifundiários poderosos e era capaz de brigar para fazer uma criança rir.

De vida reta e limpa, tem-me dado trabalho clarear-lhe a biografia. Faleceu em 1915, informa-me o mons. Paulo Heroncio de Melo, apurando um inquérito instaurado em Macau a meu pedido. Creio que tinha noventa e oito anos quando se despediu do mundo. Teria nascido em 1827.

Deduzo essa informação de um trecho de discurso seu, discurso furioso em que defendia a legalidade de uma eleição conservadora, a 18 de Janeiro de 1884, sessão presidida pelo dr. Moreira Brandão, chefe liberal.

José de Borja esbravejava da tribuna, numa sinceridade deliciosa de agressividade: –

Eu tenho toda atenção com V. Excia: respeito-o para ser respeitado; mas respeito não é servilismo. Meu gênio impele-me à franqueza; tenho 57 anos de idade, e, creio, não haverão mais forças que possam torcer-me.

Nascera no primeiro Império, governando dom Pedro I. Viveu a Regência, e o segundo Império. Acompanhou as lutas, amando as controvérsias, tendo amisades fieis e inimigos rancorosos.

Era conservador legitimo, saquarema expontaneo, senhorial e orgulhoso da gens. Foi deputado provincial em quatro biênios, 1866-67, 1870-71, 1872-73, 1886-87.

Em Janeiro de 1889, desiludido ou otimista de que os homens mudam quando mudam um regimem, tornou-se republicano e assinou a ata de fundação do Partido Republicano do Rio Grande do Norte, presidido por Pedro Velho, no meio dia de 27.

Macau, Assú, Ceará-Mirim, José de Borja dava carta e jogava de mão. Ouvido, consultado, seguido, o temperamento não lhe permitia delongas nem paciências apostólicas quando julgava estar sendo diminuído. Desempatava as questões entre os amigos ou as fazia entre os desafetos.

Onde nascera ele? No sítio Coração de Jesus, município de Angicos. E os pais? Francisco de Borja Raposo da Camara e dona Anna Maria dos Milagres Caminha.

Um irmão de José de Borja era Manuel Jerônimo Raposo da Camara casado com d. Francisca Xavier, avós da professora Herondina Raposo da Camara Caldas, de inesquecível dedicação educacional, casada que foi com Perceval de Faria Caldas.

Por essa filiação o nosso homem não é primo dos Cabrais do Assú, colegas e chefes do Partido Conservador na Província, Otaviano, Leocádio, Jerônimo e Gabriel…

Os Cabrais Raposo da Camara eram filhos de Gabriel Arcanjo Raposo da Camara, falecido a 20 de Outubro de 1848 na villa de Estremoz, casado com d. Maria Francisca de Oliveira Cabral, filha do Coronel Jerônimo Cabral de Oliveira e de sua mulher, Francisca Rodrigues Nóia, donos da fazenda ”Arraial” no Assú, onde os Cabrais nasceram. O coronel Cabral de Oliveira nascera a 13 de Dezembro de 1757 e veio a falecer em 24 de Julho de 1812.

Esse Gabriel, pai dos Cabrais, era irmão de José Barbosa Caminha Raposo da Camara, casado com Joana Quitéria das Virgens, ambos filhos de Miguel Soares Raposo da Camara e de d. Francisca Maria de Jesus, fundador da “Casa da Laranjeira” em São José de Mipibú e filho segundo do morgado Manuel Raposo da Camara, que trouxe o nome “Raposo da Camara” para o Rio Grande do Norte, enraizando a família. Se José de Borja é filho de José Barbosa Caminha Raposo da Camara e não de Francisco de Borja Raposos da Camara, como parece, está explicado o parentesco tão aproximado  e querido com os Cabrais do Assú.

Em qualquer hipótese, era um grande coração que a inteligência iluminava no plano da bondade e na altura do caráter.

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